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Arquidiocese restringe atuação digital de padre Júlio Lancellotti e decisão gera críticas

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A decisão da Arquidiocese de São Paulo de restringir as transmissões das missas e o uso das redes sociais do padre Júlio Lancellotti gerou estranhamento e críticas dentro e fora da Igreja. Conhecido nacionalmente por sua atuação junto à população em situação de rua, o sacerdote agora vive um período de “recolhimento” determinado pela hierarquia católica, em um momento de forte exposição e debate público sobre seu trabalho.

O próprio padre anunciou a suspensão das transmissões ao final de uma celebração, agradecendo à equipe e afirmando que obedeceria à orientação da Arquidiocese. O tom foi de resignação, mas a medida chamou atenção por atingir justamente um dos poucos religiosos que utilizam as redes como extensão direta de sua missão pastoral, alcançando fiéis e pessoas vulneráveis que não frequentam a igreja fisicamente.

A Arquidiocese afirma que se trata de uma decisão interna e temporária, sem dar maiores detalhes. Ainda assim, o silêncio institucional contrasta com o impacto público da medida. Ao optar por restringir a voz de um padre reconhecido pelo trabalho social, a Igreja acaba transmitindo a imagem de que o problema não são os ataques sofridos por ele, mas a visibilidade de sua atuação.

Padre Júlio Lancellotti construiu sua trajetória ao lado dos mais pobres, denunciando a violência contra pessoas em situação de rua, distribuindo alimentos, cobrindo corpos no frio e confrontando políticas públicas que criminalizam a pobreza. Suas ações extrapolam o discurso religioso e se materializam em gestos concretos, que renderam reconhecimento internacional e, ao mesmo tempo, hostilidade de grupos conservadores.

Nos últimos anos, o padre se tornou alvo frequente de ataques políticos e ideológicos, especialmente por sua postura firme em defesa dos direitos humanos. Em vez de um posicionamento público de proteção e respaldo, a resposta da cúpula da Igreja foi reduzir sua presença digital, o que muitos interpretam como uma concessão à pressão externa.

As missas presenciais seguem acontecendo normalmente, mas a ausência das transmissões afasta justamente quem mais se beneficiava delas: idosos, pessoas em situação de vulnerabilidade e apoiadores que encontravam ali uma mensagem de acolhimento e denúncia social. A decisão, ainda que administrativa, produz efeitos que vão além dos muros da paróquia.

Internamente, a Igreja fala em obediência e disciplina. Externamente, cresce a percepção de que a instituição falha em reconhecer o valor pastoral e social de quem vive o Evangelho de forma prática e incômoda. Ao limitar a atuação pública de Lancellotti, a Arquidiocese acaba reforçando uma distância entre discurso religioso e ação concreta.

Enquanto isso, o trabalho do padre segue vivo nas ruas, nas comunidades e na memória de quem foi ajudado. O silêncio imposto pelas estruturas da Igreja não apaga décadas de dedicação aos que raramente têm voz. Pelo contrário, evidencia um conflito cada vez mais visível entre uma fé vivida na prática e uma instituição que parece desconfortável com ela.

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