Artigo de opinião

Arrastada, mutilada e silenciada: a morte de Tainara expõe a brutalidade contra mulheres

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Tainara Souza Santos não morreu de forma repentina. Ela morreu aos poucos. Primeiro no asfalto, quando foi atropelada e arrastada por um homem com quem havia tido apenas um envolvimento, não um relacionamento estável. Depois, dia após dia, em um leito hospitalar. Sua história não é sobre um “casal em crise”. É sobre violência extrema contra uma mulher — ponto.

O crime aconteceu no fim de novembro, na Marginal Tietê. Após uma discussão, o homem a atropelou e continuou dirigindo, mesmo sabendo que ela estava presa ao veículo. Não era marido, não era companheiro. Era alguém que não aceitou um limite, um afastamento, um “não”. E isso basta para revelar a raiz do horror.

Arrastada por metros de asfalto, Tainara foi socorrida em estado gravíssimo. O que veio depois foi uma sequência de dores que nenhuma mulher deveria experimentar. Internada no Hospital das Clínicas, ela passou por cirurgias sucessivas. Primeiro, perdeu uma perna. Depois, a outra. Cada amputação era uma tentativa de salvar a vida — e um retrato cruel do quanto a violência foi devastadora.

Durante 25 dias, Tainara lutou. Lutou sem voz pública, longe das manchetes diárias, enquanto o corpo cedia aos ferimentos. Não houve milagre. Houve resistência. Houve sofrimento prolongado. Houve uma mulher pagando com o próprio corpo por uma violência que nunca deveria ter acontecido.

Ela morreu na véspera de Natal. Enquanto muitas famílias se reuniam para celebrar, a dela recebia a notícia que transforma qualquer data em dor permanente. O Natal passou a carregar luto. A ausência ocupou o lugar onde deveria haver riso, abraço, futuro.

A dor não terminou com a morte. Ela se espalhou. Pais, irmãos, filhos — todos atravessados por uma perda que não se explica, apenas se sente. Duas crianças agora crescem sem a mãe, carregando uma violência que não escolheram viver. O crime não matou só Tainara. Ele feriu uma família inteira.

O agressor foi preso, e o caso passou a ser tratado como feminicídio após a confirmação da morte. Mas é preciso dizer com clareza: feminicídio não exige aliança no dedo. Não exige casamento, nem namoro longo. Basta a violência dirigida a uma mulher, motivada por controle, rejeição ou posse.

Este caso escancara uma verdade incômoda: mulheres seguem morrendo não apenas dentro de relações formais, mas também em encontros, envolvimentos breves, tentativas de ir embora. A ideia de que um homem pode decidir o destino de uma mulher ainda é aceita demais, tolerada demais, relativizada demais.

A história de Tainara não pode ser suavizada. Ela foi arrastada, mutilada e perdeu a vida. Morreu no Natal. E enquanto isso continuar sendo tratado como exceção, quando é regra, o grito dela seguirá ecoando. Não por vingança — mas por justiça, memória e revolta.

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