Tradição que definha

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Em andanças pelo Centro de Fortaleza, gosto de conversar com as pessoas. Coisas de jornalista que aprecia ouvir histórias. Luciano, por exemplo, é um senhor de 82 anos e há tempos é proprietário da banca de revistas O Leal, próximo ao prédio dos Correios. Segundo ele, a banca pertenceu ao seu avô, depois ao seu pai e, de muitos anos para cá, foi ele quem a herdou.

Com seu trabalho, orgulhosamente comenta que manteve a família, inclusive educando e formando suas quatro filhas, hoje todas adultas e independentes. Duas trabalham na Justiça Federal, uma na Justiça do Trabalho e outra é assistente social. Mas Luciano me conta que acaba de colocar seu veterano estabelecimento à venda, em razão do peso da idade e da pressão familiar para que o faça.

Acrescenta que, em função da violência que ocorre na área em que trabalha, também não encontra ânimo para ali continuar. E conclui, como último e inquestionável argumento, que, hoje em dia, “quase ninguém compra nada para ler em banca de revista”. Diz, por exemplo, que atualmente leva semanas inteiras para vender um único livro ou revista para um raro interessado! 

Sinal dos tempos! É mesmo verdade o que esse octogenário senhor me narra. Lembro-me de que, ali bem perto, um senhor de origem libanesa, com típico sotaque árabe, chamado Ibrahim, já na faixa dos 70 anos, era outro a quem me dirigia para comprar uma ou outra publicação ou, mesmo, cartões-postais. Há vários anos, ele me disse que venderia sua banca também, diante do avanço da idade e de certo desânimo com a decadência do negócio. De lá para cá, nunca mais o vi. Provavelmente, já deixou este mundo.

Os velhos jornaleiros vão sucumbindo. Diante da internet e de outras facilidades, o saudável hábito de visitar uma banca, e até de conversar com o jornaleiro, desaparece. Sem dúvida, mais uma tradição que definha!

Gilson Barbosa
Jornalista

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