OPINIÃO: BARROS ALVES escreve

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ÁGUA DE CHOCALHO

BARROS ALVES (*)

O Ceará, desde os Oiteiros, movimento literário surgido no século XIX sob os auspícios do governador da Província, Manoel Ignacio de Sampaio, tem apresentado, daquele tempo a esta parte, ao longo dos dois últimos séculos, uma vida intelectual das mais dinâmicas e profícuas, constatação que levou um dos mais respeitados críticos brasileiros, José Veríssimo (1857-1916), a escrever: “Não é muito dizer que talvez seja depois do Rio, o Ceará a terra do Brasil onde é menos apagada a vida literária e maior a produção.” As associações de intelectuais e literatos cearenses deram o tom de sua vitalidade na formação da Academia Francesa (1873), do Clube Literário (1886), da famosa Padaria Espiritual (1892), do Centro Literário e da Academia Cearense (1894), esta reorganizada em 1922, 1930 e 1951. Na segunda metade do século XX, vários grupos literários forma formados com o objetivo de congregar escritores e poetas desta Terra de Alencar, assim como divulgar a nossa produção literária além fronteiras cearenses. Entre esses, listamos o Grupo de Literatura e Arte, conhecido como Grupo Clã; os Grupos SIN e Siriará de Literatura; o Clube dos Poetas Cearenses e, entre os mais novos, o já balzaquiano Grupo CHOCALHO, fundado em 1984 pelo poeta Auriberto Cavalcante.    
 
A partir do nome com que foi batizado pelo seu criador, o grupo já apresenta-se de forma diferenciada em seu simbolismo onomástico de feição telúrica e abrangente. O chocalho é um instrumento assemelhado a uma sineta de forma cônica que se coloca no pescoço de animais no interior cearense, nos sertões, para que seja rapidamente identificado. Tem sonoridade metálica, às vezes estridente, às vezes embaçada.  Há uma crendice que permeia o imaginário interiorano, segundo o qual se ministrarmos água em um chocalho a criança que demora a iniciar o processo da fala, logo ela vai começar a falar. A contra indicação da meizinha é que normalmente quem bebe água de chocalho fica tagarela.
 
O fato é que o Grupo Chocalho não é unívoco, nem uníssono, Nasceu com o objetivo de se expressar em muitas vozes, vocacionado para o pluralismo na sua “weltanschaung’. Não é apenas um grupo de literatos, mas uma congregação de artistas que atuam nas mais diversas áreas do conhecimento, exercem e exercitam seus talentos nas áreas de literatura, artes plásticas, jornalismo, fotografia, música, agitação e agenciamentos culturais, com o objetivo de oferecer uma contribuição concreta à criação, implementação e desenvolvimento de políticas públicas de cultura em nosso Estado.
 
Ao completar 35 anos de existência sob a liderança firme e intimorata de Auriberto Cavalcante, esse Quixote da cultura, o Grupo Chocalho reafirma sua condição de entidade comprometida com a qualidade da produção lítero-artística de quantos militam nessa área. De igual modo, permanece a resistência de não se quedar diante dos óbices que se lhe interponham pelo caminho, até aqui árduo, mas também permeado da alegria de ter visto brotado flores entre os espinhos da caminhada. Permanece a certeza de que no Chocalho não se fica silente, porque desde a gênesis todos os que dele fazem parte têm bebido avidamente a água pura e boa do bom chocalho. Com amor e ardor somos todos chocalheiros!!!

(*) Jornalista e Poeta, apresenta diariamente, ao lado dos também jornalistas André Capiberibe e Renato Abreu, o programa JORNAL DA CLUBE, às 18h, na RADIO CLUBE 1200.

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