O populismo trágico de Bolsonaro

0

O populismo transita facilmente em todos os matizes políticos e ideológicos. Ele pode circular no liberalismo, no conservadorismo, no capitalismo, no socialismo, na esquerda e na direita. O que define o populismo, muitas vezes, é o pragmatismo e o oportunismo. Para atender aos interesses das massas e, ao mesmo tempo, aos seus próprios, o populista usa de seu poder carismático e personalista para convencer o povo com medidas clientelistas, esperando, por parte destes, favores eleitoreiros.

O “momento político” é a energia que move o populista no sentido de atender as vontades das massas em seus anseios momentâneos e emergentes. Vale ressaltar que essas necessidades são, muitas vezes, produto da ineficiência do próprio líder político. É criar dificuldade para vender facilidade. Segundo o historiador Marcos Napolitano, as principais características do populismo são:

Relação direta e não institucionalizada do líder com as massas – Nesta característica percebemos que o líder populista cria sua relação com as massas de maneira direta e baseada em seu carisma. Além disso, a construção dessa relação com o povo acontece sem a existência de uma estrutura política que a valide.

Nacionalismo econômico – Regimes populistas geralmente assumem posturas com viés nacionalista, quando o assunto é a economia.

Discurso em defesa da união das massas – O discurso do líder populista sempre se volta para a conciliação das classes, uma vez que esse discurso se dirige à nação. Existem também líderes populistas que ressaltam um discurso em nome do “povo”, contra uma elite ou uma oligarquia.

Liderança política baseada no clientelismo – O poder do líder político é centralizado no seu carisma e na rede de troca de favores desenvolvida a partir dessa liderança.

Frágil sistema partidário – As instituições políticas das nações com regimes populistas são frágeis. Além disso, apresenta-se um sistema partidário muito embrionário ou inexistente, uma vez que o poder é concentrado na figura do líder e não no sistema político.

O fato é que, de quando em vez, surgem, em qualquer sociedade, indivíduos dissimulados escondidos sob o manto de democratas e liberais, mas que, na verdade, são tiranos enrustidos que, quando assumem o poder, colocam suas garras de fora. Isso já aconteceu várias vezes na História e vem acontecendo ainda. É só lembrarmos de Hitler, Mussolini, Franco, Fidel e Pinochet, para ficarmos por aqui. Todos esses ditadores ascenderam ao poder “em favor do povo”. E o pior: alguns deles chegaram ao poder legitimamente.

A América Latina tem uma extensa lista de políticos populistas. Países como Brasil, Argentina, Chile, Venezuela, Paraguai etc. Esses Estados estão sempre propensos ao surgimento de políticos populistas que, quando chegam ao poder, levam escondidos, dentro deles, como “cavalos de Troia”, o autoritarismo, o clientelismo e o desrespeito às instituições e ao povo.

O neopopulismo esconde, ainda mais, as intenções antidemocráticas e o verdadeiro caráter do ditador, do tirano. Nos tempos atuais, ele vem camuflado de herói defensor do povo contra o establishment e usa as redes sociais para disseminar mentiras e atacar as instituições democráticas, inclusive a imprensa tradicional. Temos, como exemplos mais próximos, o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o brasileiro Jair Bolsonaro.

Steven Levitsky e Daniel Zblatt são professores da Universidade de Harvard e autores do livro “Como as Democracias Morrem”. Nesta obra, os professores analisam o processo de subversão dos regimes democráticos nos últimos cem anos. Os autores fazem um alerta e dão dicas de como identificar pseudos democratas que se infiltram na política como líderes justos, mas que, na realidade, não passam de neopopulistas e tiranos:

“ Populistas são políticos antiestablishment – figuras que, afirmando representar “a voz do povo”, entram em guerra contra o que descrevem como uma elite corrupta e conspiradora. Populistas tendem a negar a legitimidade dos partidos estabelecidos, atacando-os como antidemocráticos e, mesmo, antipatrióticos. Eles dizem aos eleitores que o sistema não é uma democracia de verdade, mas algo que foi sequestrado, corrompido ou fraudulentamente manipulado pela elite “.

O Brasil é atualmente governado por um líder bufão, adepto do neopopulismo e cínico, que faz galhofa sobre os túmulos de mais de 250 mil brasileiros mortos pela pandemia. O atual governo nega a ciência e é omisso no combate ao vírus da CoVid-19. O presidente governa disseminando notícias falsas pelas redes sociais, elimina a mediação das instituições democráticas para poder subverter verdades e fazer a apologia da tortura e do torturador.

Depois que chegou ao poder, atraiçoou milhões de brasileiros, coisa própria dos tiranos, e segue marchando a passo de ganso sobre os caminhos da democracia, pisoteando a lei, as instituições e o povo.

Everardo Lopes/ jornalista

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui