As escadas e o abismo

0

A recente inauguração de um grande supermercado em Iaundê, capital da República dos Camarões, constituiu uma grande atração para os habitantes daquela cidade. Do lado de fora do prédio construído para abrigar o estabelecimento, centenas de pessoas se enfileiravam para conhecer as instalações. Em especial, a curiosidade popular voltava-se para utilizar as primeiras escadas rolantes implantadas na segunda maior cidade camaronesa, equipamentos até então inexistentes na rotina de seus 2,5 milhões de pessoas.

Mesmo em tempos de grande preocupação, por conta da pandemia que assola ainda o mundo, muitos se aglomeraram diante das duas escadas que funcionavam em direções opostas, mas sem saber utilizá-las. Como resultado da “novidade”, muitas quedas, empurrões, atropelos, pessoas idosas procurando descer no equipamento em sentido contrário e outras confusões. As imagens estão no YouTube e outras redes sociais, para quem as queira ver.

Dito isto, pode-se ver como é ainda tão profundo e imenso o abismo que separa as nações do mundo. Enquanto, para os moradores de Iaundê, o uso de escadas rolantes – banal em outras grandes cidades – representa um grande acontecimento, outros países estão tecnologicamente muito mais adiantados. Especialmente no continente africano, durante séculos explorado em recursos humanos e naturais pelas potências europeias, essas diferenças são ainda mais absurdas.

O comportamento das pessoas diante das escadas é a imagem mais cristalina possível da ignorância, da falta de acesso à educação e ao conhecimento, tão incipientes em Camarões e em tantas nações da África, também decorrentes da nefasta corrupção que contamina seus governos e mantém milhões no atraso, à margem do progresso e do acesso mínimo à educação, cultura e saúde. Há muito ainda a ser feito para amenizar tantas desigualdades!

Gilson Barbosa

jornalista

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui